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GENEROS MUSICAIS DO BRASIL


LUNDU


O Lundu Mas, segundo Nina Rodrigues, ainda no século XV, exatamente em 1549 chegava à Colônia o negro vindo da África e, com ele, sua música. Formava-se no Brasil, nesse momento, uma mistura de três povos: o indígena, o branco colonizador e o negro. Três culturas diferentes que seriam a base da cultura brasileira.

É com os africanos que o lundu chega ao nosso país, sofrendo, logo depois, alterações através dos contatos com ritmos indígenas como o curura e o cateretê, e tornando-se ritmo afro-brasileiro. Trata-se de gênero musical e dança de par solto que, como diz Aurélio Buarque de Holanda, teve seu esplendor no Brasil em fins do século XVIII e começos do século XIX. Dos meados do século XIX em diante, canção solista, influenciados pelo lirismo da modinha e freqüentemente de caráter cômico.

O autor Gregório de Matos Guerra (1623-1696), apelidado Homero do Lundu, faria, em 1648, os primeiros registros desta dança. Simples batuque negro, com uma coreografia extremamente sensual e insinuante o lundu saiu das senzalas e das ruas e entrou, nos palácios para tornar-se o lundu de salão, a dança preferida dos segmentos burgueses e aristocratizados da sociedade.

Todavia, nessa época, por suas origens, não gozava, pelo menos formalmente, do prestígio e da legitimidade da cultura oficial, ou seja, da cultura burguesa. Mas isso, repita-se, apenas formalmente, e assim mesmo por pressões da Igreja e de um reduzido número de intelectuais que a consideravam escandalosa, verdadeiro atentado ao pudor e aos bons costumes da família.

As palavras do escritor português radicado no Brasil, Pinto de Carvalho (1823-1879), retratam de forma lapidar o estigma que sempre acompanhou o lundu, mesmo depois de legitimado parcialmente pela cultura burguesa. Essa dança, segundo ele, atingiu o cúmulo da indecência, o sublime do canalhismo, o que jamais impediu que o bailassem nas salas de primor.

O alemão Robert Avé-Lallemant (1802-1865), viajando em 1859, pelo Norte e Nordeste do Brasil; registrou um momento importantíssimo para entendermos a função econômica da música negra, e, ao mesmo tempo, as contradições da Igreja quando estão em jogo os seus interesses. Diz ele que, em benefício das Igreja, como acontece sempre no Brasil, nas noites dessas festas e depois delas, realizou-se um leilão, em que o leiloeiro, para atrair e depenar muita gente, fazia-se de engraçado. Entre cada pregação, uma música estridente tocava alguns trechos de fados e lundus, essa desordenada tarantela de negros, na qual cada um faz todos os trejeitos e movimentos possíveis para celebrar a festa da Igreja Católica.

Com sapateados, batuques, remelexos dos quadris e a sensual umbigada, o Lundu agradava a todos os segmentos da sociedade. Mesmo os mais radicais, como a Igreja, que a consideravam indecente, imoral e escandalosa, tinham seus momentos de condescendência para com a dança. Essa "condescendência", segundo Mário de Andrade mascarava, sem dúvida, um desejo implícito de desfrutar a sensualidade dos momentos harmônicos e insinuantes das cabrochas quase negras, que dançavam o lundu ao som da cítara, da viola ou do violão.

No início da década de 1820, essa dança se transformou e passou a ser chamada de lundu-canção, nome atribuído pela fina aristocracia da época que, assim, se apropriou de mais um produto lúdico-cultural do escravo. Ao mesmo tempo em que aumentou sua importância social, em face da apropriação pelas classes superiores, justamente por isso entrou num processo contínuo de deformação (ou simplesmente de transformação) estética. Ele perdeu "o elemento de natureza e rude", principalmente características dos produtos da cultura popular, no entender do pensador e musicólogo alemão Theodor W. Adorno. Isto ocorre todas as vezes em que há o choque entre duas ou mais culturas, fenômeno definido pelos antropólogos como "fricção cultural".

Vê-se, portanto, que o lundu não escapou à regra: perdeu seus traços vitais, aqueles mesmos traços que encantaram e levaram o antropólogo Curt Sachs, em 1886, a classificá-lo no grupo coreográfico das "danças convulsivas" praticadas em todo o mundo pelos povos primitivos.

Esta dança não perdeu apenas seus traços vitais, mais, ainda a própria identidade com a categoria social que a produziu: o negro escravo. Quando saiu das rua e entrou nos palácios, como já vimos, sua sobrevivência já estava comprometida. Poderia aparecer outro lundu, é claro, como realmente apareceu, mas com as transformações estéticas produzidas pela aristocracia. A cítara, a viola e o violão, tocados nas ruas para os lunduzeiros dançarem, cederam lugar ao piano nos salões imperiais. O lundu-dança de rua, praticado por negros, mulatos, ladinos, boçais e crioulos, estava proibido: era considerado libidinoso, indecente e escandaloso. Jamais seria, para a sociedade da época, erótico, sensual e harmônico, como o descrevem Mário de Andrade e Nina Rodrigues.

Fonte: Iniciação à Música Popular Brasileira. Waldenyr Caldas, Editora Ática, 1985, São Paulo – SP FONTE: http://www.passeiweb.com/saiba_mais/arte_cultura/musica/musica_popular_brasileira

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