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Didática para o ensino de violão de 7 cordas em 5 meses.

Rj 29/10/09

Mário Pedro (Canto pra Viver)


Aos alunos de violão de 7 cordas:

A maioria dos violonistas concordou, que a grande base do aprendizado do 7 cordas é estudar o que o Dino 7 cordas (Horondino José da Silva - o homem que deu alma e sangue ao violão de 7 cordas) fez. Alguns apontam especialmente as obras do Dino com o Cartola e com o Jacob do Bandolim. O meu aprendizado, aconteceu, com muitas horas dedicadas para estas obras, tentando tocar igualzinho ao Dino e com muitas horas de botequim.

Para ensinar, inicialmente apliquei este caminho, mas constatei que um grupo significativo de alunos não encarnava a linguagem do 7 cordas. Apenas tocava de cor ou lendo as frases do Dino para determinada música e em determinado tom. Faltava autonomia, independência.

Comecei a buscar o que estava faltando para o desenvolvimento da turma a partir do material “Dino”. Era preciso se colocá-la em condições para aprender o Dino.

Muitas eram as possibilidades para ligar o automático “FAZER” e o “ASSIMILAR” a extraordinária linguagem do Dino.

Busquei na harmonia, e vi que na hora do samba e do choro, estudar dois anos de harmonia não bastava para falar a língua do 7 cordas. Busquei na música clássica, idem. Estudos de escalas, idem.

Revi meu processo de aprendizado do 7 cordas – ou Dino, já que esses nomes se confundem.

Uma imagem do meu passado: no sovaco de cobra tocando Jorge Simas (7 cordas), Motinha (bandolim), o Ivan (bandolim e cavaquinho), o Tico-Tico , primo do Dino (bandolim), Bira (pandeiro), Maria (no fogão-risos), e eu , um garoto de 18 anos bebendo daqueles ensinamentos. Revolvendo estas memórias, descobri um grande injustiçado dessa história: o “BOTEQUIM”

Do ponto de vista espacial, etender botequim como um bar, uma festa, um play, uma praça, um poste; e do ponto de vista didático, entender botequim como uma sala de aula, onde mestres generosos se reuniam para compartilhar uma linguagem musical para herdeiros multiplicadores.

Vi que todos os grandes violonistas de 7 cordas, herdeiros do Dino, na origem, passaram pelo Botequim.

No filme “Brasileirinho” Zé Paulo Becker declarou: “eu posso ser um finalista de concurso internacional, tocar violão erudito, mas não saber a música brasileira, a minha música, não ter capacidade de fazer isso... eu quero aprender essa música. E aí fui para os botecos. Eu acho que é o grande lugar, a grande escola do choro, da música brasileira. Fui como estudante de novo, não como violonista”

O elo estava dentro do botequim. Mas faltava isolar um padrão de linguagem didática para preparar o aluno para entrar no botequim.

Observei que em quase todas as frases do 7 cordas, talvez 70% delas ou mais, haviam um elemento comum que precisava ser mostrado, praticado e entendido. Com a intenção didática de distingui-lo, batizei este elemento de “pintura”. que é uma frase de 7 cordas como outras, com uma particularidade harmônica, objeto do nosso estudo.

O “pintura” é um elemento que está contido dentro da baixaria mais simples como aquele jargão que qualquer violonista seresteiro iniciante faz (ex. para la menor=> 4 semicolcheias mi ré dó si e uma semínima lá), como também está contido dentro do brilhante trabalho do Dino na introdução da música Verde que te quero Rosa (depois ouçam). Em termos práticos, este curso que chamo de jardim de infância do Botequim, consiste em colocar o aluno fazendo, de forma bem simples, frases facílimas de aprender, o tempo todo, com prazer de tocar, e assim, introduzindo em seu sangue a essência do 7 cordas (já vi alunos meus nas rodas de samba, dando gargalhadas quando conseguiam encaixar uma baixaria). Daí pra frente, o não fazer deixa de obstar o evoluir.

Dominando o “pintura” é possível começar a perceber e entender muita coisa que o Dino fez, e daí, a luz, a aplicação, a cópia consciente e por fim, a capacidade de criação das próprias frases dentro desta linguagem.

O “pintura” é um estudo muito simples, que vai permitir o aluno entrar no botequim e tocar 7 cordas, vai ser bom para exercitar sua leitura musical, e será um apoio para sua percepção. No nosso curso de sete cordas (com duração de 5 meses), nos aplicaremos o “pintura” ao repertório do Dino com Cartola, e por último, após os 5 meses de “pintura”, as partituras com as transcrições dos baixos do Dino para as músicas acima.

Quanto a estudos como: harmonia, contrapontos, composição, Bach e outros estudos, acho que são muito importantes, porém, cronologicamente, estes conhecimentos não precisam anteceder a linguagem do botequim. Com o “pintura”, versão do Canto pra Viver para o o estudo do sete cordas, todos os nossos alunos ganharão autonomia para “brincar” (uma vez que o 7 cordas também é moleque) com as baixarias. Claro que qualquer conhecimento técnico e prático em música e violão sempre irão somar, mas tem coisas que você só encontra no botequim, como a molecagem, a malícia, a surpresa, etc.

O “pintura”, é a minha contribuição. É o pontapé inicial para a construção de uma didática, para o violão de 7 cordas (iniciante). É uma visão muito simplificada do tocar violão de 7 cordas, e muito longe de dizer que Dino é simples. Aí fica o espaço para um grande trabalho para ser desenvolvido, sempre tendo como fonte o Dino e o que rola no Botequim. Creio que este curso já vai desempenhar um papel muito importante, que é reduzir para 5 meses, o que muitos levaram anos para adquirir. Aí então, este é um bom momento de estudar (não necessariamente nesta ordem):

• DINO E CARTOLA
• DINO E JACOB
• DINO E MEIRA
• DINO E RAPHAEL
• MEIRA
• PIXINGUINHA
• DILERMANDO REIS
• VILA LOBOS
• GAROTO
• BADEN
• BACH
• DEBUSSY
• FLAMENCO
• OUTROS TANTOS
• BOMBARDINOS, TROMBONES, TUBAS (BANDAS)
• ESTÉTICA
• HARMONIA
• PERCEPÇÃO
• CONTRAPONTOS
• ETC
Finalizando fazendo justiça, o BOTEQUIM é o lugar onde o violão brasileiro, o cavaquinho, o pandeiro, o samba, o choro, o bandolim, a caixa de fósforo, a percepção, etc., cresceram e se desenvolveram, e espero que muitas coisas ainda aconteçam no botequim.

Como eu disse no inicio, o Dino foi quem deu alma e sangue para o 7 cordas. O Botequim socializou esta informação. Aí, a sua grande importância.

Forte abraço e bom estudo.

MÁRIO PEDRO



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